quinta-feira, 18 de julho de 2013

Família Bernardino On the road 2013. Preparativos



Não sei como surgiu a ideia, acho que foi a junção de várias coisas e também das inspiradoras palestras que tenha assistido sobre viagens em bicicleta , destaco a viagem do Gonçalo Pais, que foi com o seu filhote de 7 anos de Lisboa a Badojoz e a Tânia e o Rafael que foram de Ovar até a Macau. 

Estamos, então de partida para a nossa primeira viagem de longo curso de bicicleta! Saímos de  Lisboa e o nosso objectivo é chegar até Vila Real de Santo António (Algarve), vamos de comboio até Casa Branca (Alentejo) e a partir daí vamos a pedalar, passando pelo Alqueva, Vila Verde de Ficalho e outros locais. O João, para além de estar a preparar o itinerário, começou a fazer listagens de tudo o que iríamos precisar e estabeleceu prazos para cada um cumprir, como sempre eu não os cumpri. Mas, vai correr tudo bem, a parte mais difícil, que foi escolher a roupa que os miúdos vão levar, a minha, toalhas e roupa de cama, já está feita e também já interiorizei que vou ter de lavar roupa.

Na verdade antes de outra coisa qualquer a primeira coisa que me lembrei foi pedir para nos fazerem umas tshirts, para a nossa viagem, acho que ficaram bem giras!



Dado que não é muito habitual uma família com 2 filhos pequenos, fazer uma viagem de bicicleta que julgo vão ser de cerca de 160 km, ainda por cima no Alentejo, em pleno Verão e onde também iremos acampar, as reacções dos outros têm sido de estranheza, para não dizer outra coisa. Algumas vezes dou por mim a ficar calada (coisa extremamente difícil na minha pessoa) e a sorrir... Porque directa ou indirectamente, tenho sido bastante criticada, têm posto em causa a minha responsabilidade como mãe, o meu dever de zelar pela saúde dos meus filhos, etc.

Fico calada, porque o mais importante para mim é aquilo que eu sinto e o que faz sentido para mim. É a minha confiança que como mãe, estou a fazer o melhor que sei e a tranquilidade de saber que até agora tenho feito um bom trabalho, diria mesmo excelente! Sou muito melhor mãe e somos muito melhores pais, do que alguma vez os meus pais foram. 

Neste momento não preciso de exteriorizar, de defender a causa, de querer que todos compreendam e apoiem. Preciso é de fechar os olhos e sentir o coração bater de felicidade, sentir o corpo encher-se de energia, por saber que em breve estaremos os 4, em sintonia, a respeitar os ritmos e os limites de cada um, em que estaremos virados só para nós. 

Sim, as pernas vão doer, vai estar calor e vão haver coisas que não vão correr bem... depois estarei cá para contar como foi...

                                                                                       Seguinte: 2 semanas depois...



segunda-feira, 15 de julho de 2013

Sevilha&Filhotes


No inicio de Junho fomos a Sevilha! 

A decisão foi tomada apenas uns dias antes e talvez por essa imprevisibilidade tenha sido ainda melhor. O João foi em trabalho e eu fiquei com os miúdos durante o dia. Ele queria levar as bicicletas e afins, porque segundo ele Sevilha é uma cidade onde se pode perfeitamente circular sem problema. Eu, só de pensar na logística de as transportar no automóvel, com a toda a confiança (ou não), afirmei que me deslocaria de transportes públicos.

Antes de ir fiz uma pesquisa mesmo muito breve de alguns sítios para ir com crianças e dei com isto: Jardins de MurilloPlaza de España e Parque María LuisaSão de facto sítios fantásticos para ir com os miúdos.

Tivemos a sorte de ficar na Alameda de Hercules, um verdadeiro paraíso! Uma avenida onde não passam automóveis, cheia de esplanadas, parques infantis e que desde as 16h00 até 22h00, fica atolada de pais, crianças e vá bicicletas!


Também tinha espectáculos de rua (gratuitos) para as crianças assistirem!



Conhecer (no meu caso rever) uma cidade com os meus filhotes foi maravilhoso, digo mesmo libertador! Porque sabia que tinha de aproveitar ao máximo cada momento, a qualquer altura uma birra ou outra coisa poderia acontecer, dar uma importância a tudo (exemplo: "Já viste filhote, as pessoas aqui falam de outra maneira". "Olha aquelas janelas tão giras."), para a visita ser muito interessante e memorável e finalmente viver aquele momento de estarmos os três bem juntinhos...

Sevilha aos olhos dos meus filhos, acho que se revelou como um parque infantil gigante, pelo menos por onde circulei, parecia que havia um em cada esquina. Os sítios que visitamos foram sobretudo parques, praças, no fundo o meu grande objectivo foi deixá-los BRINCAR.


Parque infantil 1



                                                                                            Parque infantil 2

Plaza de España

 Parque María Luisa 1

 Parque María Luisa 2


 Parque María Luisa 3

Andamos de autocarro e eléctrico, ainda perguntei o preço para andarmos de coche para a minha bolsa era impossível... Mas, como podem ver pelas fotos, não se revelou necessário...


As refeições foram o que foram... croquetes de jamon, hambúrgueres, batatas fritas, fruta enlalatada,etc mas, no geral até acho que não correu mal....





Adorei Sevilha e sobretudo adorei conhecê-la aos olhos dos meus filhos. Sinto que esta foi a primeira de muitas aventuras, só nossas, ao nosso ritmo, à nossa maneira!









sexta-feira, 22 de março de 2013

Activismo



Todos somos muitas coisas, boas e más. Eu por exemplo, entre outras coisas, sou mulher, mãe de dois filhos, colaboro com a Cenas a Pedal e estudo Psicologia no ISPA

Colaborar com a Cenas a Pedal e estudar no ISPA, tem-me permitido ver o mundo com outros óculos, diria que com os óculos reais (antigamente utilizava uns cor-de-rosa). Por um lado, assumir o controlo quase total do meu trabalho, diariamente ter de me auto-motivar, aceitar que o "erro" faz parte de todo o processo, aceitar que não sou perfeita, que tenho tantas limitações que precisam de ser trabalhadas por mim, aprender a confiar no outro, simplesmente porque o mundo também tem pessoas confiáveis. E por  outro lado, tem sido avassalador, trabalhar e estudar em áreas que estam relacionadas com a mudança de comportamentos, desmitificação de crenças e que me têm forçado a pôr em causa a minha essência, que me têm vindo a tornar numa tímida activista, em que a minha causa é construir um mundo melhor. Um mundo onde todos se respeitam e aceitam as diferenças, onde conseguem ir para lá da primeira impressão e ver o contexto, o cenário todo. E seria tão mais simples...

Esta introdução está relacionada com a experiência que vivi hoje, pedalava calmamente e sem entrar em pormenores, um autocarro passou por mim, fazendo-me uma tangente. O resultado poderia ter sido dramático. O que quero destacar é que senti uma força enorme, uma vontade de lutar, de não me acomodar e pedalei até ao autocarro (entretanto estava parado na paragem a recolher passageiros), bati no vidro e falei com o condutor:
- Você viu a tangente que me fez?- perguntei.
- Você não pode circular no meio da estrada, tem de usar capacete e tem de ter seguro. - respondeu o motorista.
- Posso. Está enganado, tem de se informar.- respondi eu.
E o motorista fechou o vidro, virou-me a cara e não me deixou argumentar. E a verdade é que o motorista está mesmo mal informado, o código da estrada permite-me circular na estrada, não me obriga a ter capacete nem seguro. E mesmo que fosse o caso, a atitude do motorista que pôs em causa a minha segurança e a minha integridade física e psicológica, não foi correcta, não conseguiu ver que há espaço para todos, não respeitou a minha individualidade e é esta individualidade que tenho vindo a construir lentamente, com a ajuda dos meus colegas da Cenas a Pedal e do ISPA, da minha família e amigos e com a ajuda de todos os tombos que tenho dado, graças a ela a história do motorista da Carris não vai ficar por aqui, vou apresentar queixa.

O processo de mudança é lento, como tantos outros, já viram as quedas que um bebé dá antes de conseguir dar os primeiros passos? Ou as tentativas que o meu filhote teve de fazer antes de conseguir pedalar? 

       


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Perfeição


Durante muito tempo não esperei (e não esperavam) outra coisa de mim, que não fosse perfeição.

Quando estou a pedalar esse "registo de perfeição" ainda se activa, acho que tenho ser um modelo de perfeição, o chamado "role model", porque penso que o meu comportamento pode influenciar o outro. Por vezes, também me julgo pertencente a uma elite superior muito mais inteligente, sábia e moderna e não compreendo porque é que as pessoas não utilizam a bicicleta como veículo utilitário se esta só traz benefícios!! QUE HORROR!! QUE PARVA!!

Felizmente cada vez me liberto mais deste registo e me aceito como sou. Pedalo porque para MIM isso faz sentido. E no outro dia estalou-me o verniz e fui eu mesma, quando um condutor me exigia que fosse para a faixa "Bus". Eu gritei cheia de raiva e completamente fora do modelo da perfeição: "Vai mas é passear!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!"

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Diversidade





Quando era adolescente uma das coisas que mais ouvia em campanhas relacionadas com racismo era a frase: "Todos diferentes, todos iguais."

Sistematicamente esquecemo-nos que somos todos pessoas, todos temos sentimentos, emoções, gostos, preferências, família, amigos, etc. E também sistematicamente procuramos estar inseridos num grupo, dentro de uma caixa bem fechada, somos por vezes uns cordeirinhos... perante a diferença, assumimos um comportamento de defesa, criticamos, desprezamos...

No Domingo passado fui à minha primeira "Bicicletada", a bicicletada de Santa Iria e adorei! 

Adorei precisamente a diversidade e o facto de me ter obrigado a despojar da forma das coisas e focar-me no seu conteúdo. Somos todos pessoas e somos todos o espelho de cada um de nós.



sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Uma miúda moderna

"Ora aqui está uma miúda moderna!"
A expressão que eu devo ter feito quando ouvi uma vizinha fazer este comentário deve ter sido semelhante à do meu filhote Vasco na fotografia em cima. 

Vou contextualizar:

Ando numa fase em que não tenho pedalado muito, todas as desculpas tem servido para não o fazer. Como referi em alguns dos outros textos, pedalar, para mim implica estar em contacto comigo, pedalar obriga-me a olhar para o meu interior, pedalar força-me a ter tempo para reflectir. 

Tenho sentido alguma tristeza e desconforto que resisto em manter congelados dentro de mim em vez de os descongelar (pedalar de certa forma ajuda-me neste processo) e deixar entrar outros sentimentos muito mais agradáveis.Tem sido de tal forma que o meu corpo envia-me sinais por todo lado, cansaço, fadiga e foi ainda mais longe quando senti um aperto no coração. Aí teve mesmo de parar. Parar para sentir e perceber o que se está a passar comigo. O que se passa comigo é tão simples como aceitar que ás vezes estamos tristes (pelos mais diversos motivos) e que temos de nos entregar a essa tristeza  e que isso é tão natural como estarmos felizes. 

Ora, estava eu neste estado a entrar no meu prédio com a bicicleta quando a minha querida vizinha, com um grande sorriso nos lábios me disse: "Ora aqui está uma miúda moderna!"

Eu fiquei sem palavras, acho que devo ter sorrido e agradecido. 

Miúda?! Estou a 21 dias de fazer 33 anos, as brancas já aparecem e a idade por vezes já pesa.
Moderna?! A roupa que trazia vestida tem entre 5 a 10 anos (não estou  a brincar), não tinha qualquer tipo de acessórios ou adereços. Ou tinha? Tinha! A bicicleta.

Julgo que a vizinha de alguma forma conseguiu entrar em contacto com o meu coração e perceber que este sorria, pois estava um pouco mais leve, tranquilo e mais feliz depois de termos ido pedalar. E estamos!




segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Faz hoje um ano...

Faz hoje um ano que o Vasco nasceu! Correu tudo de forma tranquila, cheguei à maternidade pelas 14h00 e o nosso bebé nasceu pouco antes das 17h00. 

O João queria ir para a maternidade de bicicleta e eu cheia de contracções olhava para ele, que estava num misto de nervosismo e de excitação e nem queria acreditar no que ele me estava a propor...

Talvez hoje compreenda que ele naquele momento quisesse partilhar a felicidade que estava a sentir com a bicicleta e deixar-se levar por ela, fundir-se nela, estar em sintonia com a natureza, com os sons, cheiros e ter uns instantes antes de algo tão avassalador como o nascimento de um filho  acontecer.